Sapoti

A verdadeira história de Chico Sapote

Por: Lourdes Barbosa & Gustavo Maia Gomes

 

Os antecessores remotos de Chico Sapote nasceram há muito tempo em algum lugar da América Central ou sul do México. Desde então, seus filhos, netos e bisnetos ganharam o mundo, levados por mãos espanholas e portuguesas. Quando chegaram aqui, viraram os mais brasileiros dos brasileiros. Até mudaram de nomes.

LOURDES E GUSTAVO

Lourdes é paraense; Gustavo, pernambucano. A fruta mostrada abaixo – de forma ovalada, cor marrom, textura suave, sabor adocicado, baixa acidez – é bem conhecida de ambos.

Sapoti, no Recife; sapotilha, em Belém.

 

– “Sapoti”, diz Gustavo.

– “Sapotilha”, diz Lourdes.

– “Até hoje, Sapotilha eu não sabia o que era”, retruca Gustavo. “Conheço a Sapota. Redonda, pouco menor que uma laranja pequena. Já pesei uma com mais de 250 gramas. O Sapoti não chega à metade disso. Mas, em sabor, são iguais.”

Eis a Sapota:

Sapota, abundante no Recife; desconhecida (?) em Belém.


– “Em Belém, tudo é Sapotilha”, diz Lourdes. “Se lá existe a Sapota, desconheço. Com esse nome, certamente, não existe”.

Àquela altura da conversa, eles tinham três nomes para duas frutas. Mas, seriam mesmo, apenas, duas? Na dúvida, foram cascavilhar a Internet.

Descobriram coisas fantásticas.

SAPOTA, SAPOTI, SAPOTILHA

Prá começar, as três buscas feitas pelo Google renderam resultados bem diferentes: “Sapota” gerou 596 mil respostas; “Sapoti”, 178 mil e “Sapotilha”, 5.520. Aparentemente, portanto, “Sapota” seria o nome principal. Mas as coisas não são tão simples: há muitas frutas com nomes de Sapota Isso-ou-Aquilo. Nem sempre elas têm a ver com as nossas Sapotas e Sapotis. A Sapota Branca (Casimiroa Edulis), por exemplo, tem parentesco com as frutas cítricas; a Sapota Negra (Diospyros Ebenaster Retz.) é verde por fora, lembrando um tomate, e negra por dentro. Está distante do Sapoti.

De qualquer modo, a busca continuou. Uma notícia de 2004 (“Embrapa lança suas primeiras cultivares de sapoti”) ajudou Lourdes e Gustavo a entenderem um ponto básico: as árvores do Sapoti e da Sapota, ambas chamadas Sapotizeiro, são da mesma espécie (Manilkara Sapota), embora os frutos sejam, levemente, diferentes. [i]

Pelas histórias que correm, sancionadas pela Embrapa, o Sapotizeiro teve origem na América Central e Sul do México, difundindo-se a partir dali até chegar às regiões tropicais da América do Sul. Também foi levado para a Ásia, provavelmente, pelos portugueses. Na atualidade, o país maior produtor mundial de sapotis é a Índia. No Brasil, a maior parte da produção está no Nordeste.

Mas o Sapotizeiro tem outras utilidades:

Na primeira metade do século 20, desenvolveu-se no México e na América Central uma grande indústria de goma de mascar tendo como matéria-prima o látex exsudado do tronco da planta do sapotizeiro. No Brasil, no entanto, o consumo de Sapoti é na forma de fruta in natura.[ii]

Numa prova de que as notícias circulavam, mesmo antes da Internet, Gustavo mais de uma vez tentou, quando criança, produzir chicletes de bola usando aquele líquido branco coletado do sapotizeiro que ainda hoje existe na casa da sua “tia” Matilde, em Beberibe, Recife. A tia, ao contrário do sapotizeiro, há muito tempo se foi.

UMA FRUTA DE MUITOS NOMES

O Google também revelou que o Sapoti / Sapota / Sapotilha tem muitos nomes pelo mundo afora. Uma fonte respeitável, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, cita uma quantidade bem grande deles. Foi quando Gustavo e Lourdes ficaram conhecendo Chico Sapote:[iii]

A Wikipedia, por sua vez, afirma que “Sapoti” ou “Sapota” é uma palavra usada para designar vários tipos de frutas comestíveis de textura suave. Algumas delas, mas não todas, pertencem à família Sapotaceae. Dentre os que são desta família estão os nossos Sapoti / Sapota / Sapotilha (Manilkara Zapota), a Sapota Amarela (Pouteria Campechiana), a Sapota-Mamei (Pouteria Sapota) e a Sapota Verde (Pouteria Viridis). Todas são originárias da região que compreende, com pequenas variações, os atuais México, Guatemala, Nicarágua, Belize, El Salvador e o Norte da América do Sul (Em http://en.wikipedia.org/wiki/Sapote).Esses seriam, por assim dizer, os irmãos do Sapoti.

AS SAPOTAS DO MUNDO

Sapota Amarela (Pouteria campechiana). A Sapota Amarela é uma fruta de clima tropical que pode ser encontrada desde o México até o Brasil. Também conhecida pelos nomes de Fruta-Ovo, Gema de Ovo e Canistel, sua polpa foi descrita como “doce, com uma textura muitas vezes comparada à de um cozido de gema de ovos”[iv].

Sapota Amarela (Pouteria campechiana)

 

Sapota-Mamei (Pouteria sapota). De acordo com o site E-Jardim, a Sapota-Mamei, originária do sul do México e norte da Nicarágua, tem formato ovalado, com uma extremidade pontiaguda. A casca marrom rugosa lembra a do nosso Sapoti. O fruto tem textura muito macia e quase desprovida de fibras, sendo extremamente doce.

 

Sapota-Mamei (Pouteria sapota).


“Uma belíssima fruta, que deveria receber mais atenção dos fruticultores brasileiros”, diz o texto do E-Jardim.[v]

Sapota Verde (Pouteria viridis). A Sapota Verde é um “fruto ovóide, pontiagudo no ápice, de 9-10 cm de comprimento x 6-8 cm de diâmetro. A casca é lisa, fina e verde-oliva, com polpa de altíssima qualidade, marrom-avermelhada e desprovida de fibras ou granulações. O sabor, doce e agradável, tem algo de amêndoas, intermediário entre o do Mamei (P. sapota) e o do Sapoti (Manilkara zapota)”. [vi]

Sapota Verde (Pouteria viridis)

EPÍLOGO

Conforme apresentado neste texto, os antecessores remotos de Chico Sapote nasceram há muito tempo em algum lugar da América Central ou sul do México. Desde então, seus filhos, netos e bisnetos ganharam o mundo, levados por mãos espanholas e portuguesas. Quando chegaram aqui, viraram os mais brasileiros dos brasileiros. Até mudaram de nomes.

Hoje são Sapotis, Sapotas, Sapotilhas.

O Sapoti se tornou, portanto, brasileiríssimo e se incorporou ao imaginário local, principalmente no Norte e no Nordeste do país, sendo uma fruta muito representativa e apreciada nestas regiões. Além de ser consumido ao natural, se presta para compotas, doces, sucos, sorvetes, geleias e aonde mais a imaginação gastronômica quiser levá-lo. Sua árvore pode alcançar mais de 15m de altura, com uma copa de folhagem densa. Ela ainda pode ser encontrada em muitos quintais brasileiros, o que representa a força desse povo e ajuda a amenizar o calor típico de nosso clima tropical.

A busca por mais informações sobre esta fruta especial se deu, principalmente, porque o seu nome foi escolhido para designar o Projeto Sapoti, pensado por Thiago das Chagas, Lourdes Barbosa e Uiara Martins. O que se pretendeu foi fazer uma homenagem a essa fruta doce, suculenta e de sabor finíssimo que se desenvolve a partir de uma árvore forte e frondosa, representativa de nossa brasilidade nortista e nordestina e, portanto, das ideias concebidas pelos integrantes desse projeto. Nossa logomarca mostra muito bem isso tudo.

 

REFERÊNCIAS

Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). A cultura do sapoti. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2005. 71 p. – (Coleção Plantar, 46).

Clódion T. Bandeira e outros, “O cultivo do sapotizeiro”, Embrapa, Circular Técnica n. 13 (Fortaleza, dez 2002), em http://www.cnpat.embrapa.br/cnpat/cd/jss/acervo/Ci_013.pdf

USDA, ARS, National Genetic Resources Program. Germplasm Resources Information Network – (GRIN) [Base de Dados Disponível na Internet]. National Germplasm Resources Laboratory, Beltsville, Maryland. URL: http://www.ars-grin.gov/cgi-bin/npgs/html/index.pl (Acess 11 September 2013).

Michel H. Porcher et al. “Sorting Manilkara Names. Multilingual Multiscript Plant Name Database – A Work in Progress”. Published by The University of Melbourne. Disponível em http://www.plantnames.unimelb.edu.au/Sorting/Manilkara.html > (2010).

Video sobre o cultivo da Sapota (Aracaju, 2011). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=3R02BJKuuvE

Video sobre Chico Sapote (em espanhol). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=EvMSjRS4IpM

Video sobre a Sapota-mamei (em espanhol). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=eRsVyA7qW-A

Video sobre a Sapota-mamei (em inglês). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=7tiJ2EwN8_E&feature=endscreen

Video sobre a Sapota Amarela (em inglês). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=QXPRWrDZ2WY


NOTAS

[i] “Embrapa lança suas primeiras cultivares de sapoti” (25/11/2004), em http://www.embrapa.br/imprensa/noticias/2003/setembro/bn.2004-11-25.7914127808/, acesso em 12/9/2013.

[ii] Clódion T. Bandeira e outros (2002).

[iii] USDA (acesso em 11/9/2013), Porcher (2010).

[iv] (Blog Saúde pelas Plantas, em http://saudepelasplantas.blogspot.com.br/2010/04/canistel.html, acesso em 12/9/2013).

[v] Em http://www.e-jardim.com/produto_completo.asp?IDProduto=288, acesso em 12/9/2013.

[vi] Em http://www.e-jardim.com/produto_completo.asp?IDProduto=295, acesso em 12/9/2013.

Gustavo Maia Gomes

Ph. D em economia (University of Illinois, USA, 1985); Visiting Scholar (Cambridge University, England, 1987/88); Mestre em economia (Universidade de São Paulo, 1976); Diretor do Ipea (Brasília, 1995/2003); Diretor Geral da Esaf (Brasília, 2006); Professor da Universidade Federal de Pernambuco (1976/2009); Secretário de Planejamento, Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco (1991); autor de livros e artigos; economista e escritor. Casado com Lourdes Barbosa. Pai de Marília, Claudia, Pedro, Daniel e Gabriela.

Comments (2)

  1. Fico feliz pelo site, muito bem elaborado. alegre e convidativo! Também, minha amiga à frente, tem que ser bom! kkk
    Enfim, boa sorte a vocês e que sempre, Deus esteja abençoando vocês onde quer que fores e quais sejam seus desejos e sonhos.
    Beijão, Nan

  2. Meus parabéns por essa iniciativa!!! Desejo-lhes muito êxito nesse projeto!!!

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