Restaurantes étnicos, cultura gastronômica e autenticidade

 Por Uiara Martins

A inspiração para o texto desta semana veio ontem, exatamente na hora almoço. Como a mesa também é lugar de reflexão iniciamos uma discussão sobre as diferenças das comidas  servidas em restaurantes  étnicos e começamos a perceber que essa diferença é mais profunda ainda de acordo com cada país. Não pense que comer num restaurante chinês no Brasil, será a mesma coisa que comer em um restaurante chinês em Portugal ou na china.

Tudo começou quando pedimos um crepe chinês (denominação em Portugal/ rolinho primavera no Brasil). Uma das amigas brasileiras que nos acompanhava logo perguntou:  existe crepe de queijo? E eu disse que não, porque já tinha frequentado o restaurante outras vezes e sabia de que modo era servido. Bem para que não fiquem curiosos o crepe chinês que tradicionalmente se encontra nos restaurantes chineses em Portugal, é feito com legumes e carne moída.  Encontramos ainda uma outra versão feita de camarão, mas também diferente do que encontramos no Brasil.

A partir daí começamos a olhar para o cardápio com mais atenção e fomos percebendo um aspecto que também nos chamou atenção: a adaptação de pratos chineses a ingredientes portugueses e brasileiros (Por exemplo, galinha com amêndoas, carne de vaca com castanhas portuguesas e galinha com castanha de cajú). E aqui sim começou a ideia de trazer esta discussão para o sapoti.

Mas qual é verdadeiramente o papel de um restaurante étnico? Esta a comida é  autêntica? Porque colocar ingredientes da cultura local onde o restaurante está instalado? Em que isso interfere na minha experiência com esta comida em outros lugares, principalmente no lugar de origem? Quero que reflitam comigo estas questões de modo geral, ou seja, pensando em qualquer restaurante étnico, porque todos tem atitudes de forma muito similar.

De acordo com Kye–Sung e Sparrowe (ano) os estabelecimentos étnicos são fortemente ligados às culturas das quais se originaram.  Estes restaurantes refletem a variedade e a diversidade de suas culturas.  A cozinha tende a ser autêntica.

Os restaurantes étnicos são desenvolvidos comumente em locais onde haja um grande número de imigrantes de determinada cultura (por exemplo, em Portugal existem diversos restaurantes de cozinha brasileira). Para estas pessoas, frequentar um restaurante étnico significa estar mais próximo do seu país de origem. Para a comunidade local ou outros visitantes estes estabelecimentos são vistos como um diferencial que pode proporcionar novas experiências com outras culturas.

De modo geral, a essência dos restaurantes étnicos é criar uma experiência  o mais autêntica possível com outra cultura. Entretanto esse é um desafio que se confronta com muitas barreiras, principalmente quando se trata da população local. Determinados tipos de alimentos, modos de confecionar ou temperos, não agradam a todos os paladares e muitas vezes em grandes quantidades, acabam por criar fortes aversões a comida de determinada cultura.

É aqui que entram os ingredientes que são fortemente consumidos nos locais. Acredito que no Japão não se façam sushi com manga ou com doce de goiaba. Na Itália jamais haverá uma pizza de rapadura com queijo coalho, como é servida em Fortaleza. A tradição de servir sobremesas nos restaurantes chineses em Portugal, não existem na China. Tudo isso é adaptação e inovação, para agradar a cultura local.

E onde mora a tal da autenticidade? Bem não quero aqui aprofundar conceitos, mas expor o que para mim é autêntico. Pelas experiências que tive em países que visitei, percebi que as comidas dos restaurantes étnicos jamais serão autênticas, se considerarmos que autêntico é confecionar a comida igualmente como se tivesse no lugar de origem. Existem diversos fatores que não permitem isso, como por exemplo ingredientes de difícil acesso e as preferências da cultural local.

Autêntica é mesmo a experiência criada nesses restaurantes, onde a decoração do ambiente físico, o som, etc, criam essa proximidade. È verdade que a comida é o ponto forte dessa experiência. Mas não só a comida do outro, mas a comida que agrada meu paladar.

Trabalhar esta forma de autenticidade na cozinha é muito inteligente. Nasce dela uma nova cozinha. Ela só não pode é ser confundida quando viajamos para o destino. A pizza na Itália é totalmente diferente da que comemos no Brasil (e eu prefiro a nossa), dentre muitos outros pratos que conhecemos.

De forma muito resumida e prática o que procuramos neste texto foi chamar atenção para a capacidade de adaptação que os restaurantes étnicos têm em proporcionar uma experiência autêntica através de uma cozinha que não chamaria de étnica, mas multicultural.

 

Um agradecimento especial as amigas Karla Tav ares e Tatiana Moritz que iniciaram comigo essa discussão. E um agradecimento também para as amigas Amandine Ferreira e Susana Silva que me falaram também de suas experiências gastronômicas multiculturais no oriente.

10. dezembro 2013 by admin
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