Tapi (pão) Oca (casa) II – as Tapioqueiras da Paupina em Fortaleza.

Por Uiara Martins

 

Atualmente, encontramos uma grande discussão sobre a questão da comida dita “tradicional”. Já dizia Montanari(2008) que a tradição é a inovação que deu certo!  Tradição essa que se conflitua com a modernização trazida pela globalização, pelas novas tecnologias etc.

No texto da semana passada, Thiago das Chagas refletia sobre estas questões quando expôs seu ponto de vista sobre a comida pirata, porque esta é realmente uma preocupação válida para o que estamos consumindo. Mas hoje vamos entrar numa reflexão mais concreta, ou prática, com um exemplo que temos na cidade de Fortaleza, as Tapioqueiras da Paupina.

Paupina é um dos bairros do distrito de Messejana em Fortaleza.  Messejana, a terra de José de Alencar, de Iracema e também das tribos potiguares que habitaram no Ceará.  Sendo a tapioca uma receita de origem indígena, acredita-se  que o conhecimento e a herança dessas tapioqueiras advenha dos seus antepassados potiguares.

Mas qual a grande questão que envolve a história dessa comunidade? O que era tradição e virou modernidade? O que ficou? O que se perdeu?

O pão que era de casa foi para as ruas. Assim, na década de 30 do século XX, as tapioqueiras deram início à venda das tapiocas em mercados, em feiras e nas ruas de Fortaleza.  O negócio deu certo e a venda passou a ser feita também a partir de suas casas.

O público fiel era a população veranista de Fortaleza, que ia para a casa de praia no final de semana, para além dos turistas que por ali passavam.  Em 1960, tal era a importância e o gosto pelas tapiocas que o governo do Estado denominou o espaço onde encontravam-se as tapioqueiras de “pólo das tapioqueiras”. Em 1970, o fluxo já era intenso e grande era a procura pela iguaria. (Bezerra,2005, p.92). Este espaço concentrava-se numa rua do bairro da Paupina, chamada Barão de Aquiraz.

Polo antigo. Foto: Marques 2010

Polo antigo. Foto: Marques 2010

Polo antigo. Foto: Marques 2010

Polo antigo. Foto: Marques 2010

Polo antigo. Foto: Marques 2010

Polo antigo. Foto: Marques 2010

Este pólo, que antes funcionava na casa das pessoas que produziam a tapioca simples ou tradicional (molhada com leite de coco), passou, no ano de 2000, por uma transformação que culminou no seu fim, dando origem ao Centro das Tapioqueiras, local para onde foram relocadas. Os fatores que ocasionaram estas mudanças estão relacionados com políticas públicas e, mais especificamente, com o desvio e a duplicação da CE-040, a qual descaracterizou o antigo pólo para além dos anseios de transformar a tapioca em um forte produto turístico (BEZERRA, 2005).

No antigo lugar simples, pacato e em “casa podia-se deitar até na rede se fosse da vontade do cliente, as opções não eram muitas, a bebida era o café quentinho, e para além das tapiocas poderiam ainda encontrar bolo de grude e pé-de-muleque. O forno a lenha, de herança indígena, que proporciona um sabor diferenciado e a goma fresca das casas de farinha.

Apesar da relocação dos pontos de venda, algumas famílias continuam até hoje na rua Barão de Aquiraz, mas o público não é o mesmo, mas o sabor sim, é único!

O novo lugar das tapioqueiras, o “Centos das Tapioqueiras”, já existe há mais de 10 anos  e continua a ter como principal público fortalezenses e turistas. As tapioqueiras encontram-se num espaço novo, “moderno”, servem tapiocas com mais de 50 sabores diferentes. Recheadas com produtos típicos do nordeste, como a carne seca e o queijo de coalho, com diversos doces, queijo catupiry, dentre muitos outros.

Centro Tapioqueiras Fortaleza (polo novo). Foto: Marques 2010

Centro das Tapioqueiras Fortaleza (polo novo). Foto: Marques 2010

Centro das Tapioqueiras Fortaleza (polo novo). Foto: Marques 2010

Centro das Tapioqueiras Fortaleza (polo novo). Foto: Marques 2010

È claro que muito rapidamente apresentei aqui a comunidade e não expus diversos problemas que a mudança para o centro das tapioqueiras trouxe para a vida destas famílias, os quais ainda identificarei em outros textos.

Retornando à frase de Montanarri no inicio do texto, podemos perceber que a tapioca servida no Centro das tapioqueira é exatamente a inovação que deu certo. Não posso negar a delícia que é comer uma tapioca recheada. Mas também não abro mão de comer a tapioca tradicional servida na rua Barão de Aquiraz, que tem gosto de casa, de história e de memória,  e um sabor incomparável.

Penso que com todas estas mudanças todos nós perdemos e ganhamos! Até que ponto é melhor um ambiente moderno a um simples? Até que ponto é preferível inovar e alterar sabores?

Não acredito que as tapioqueiras tenham perdido suas raízes, ao contrário, continuam a preservá-la. Considero que as raízes gastronômicas são a base, a matriz das receitas. Se considerarmos que acrescentar sabores a tapioca seria “perca de raízes”, podíamos dizer que estas já se tinham perdido desde os tempos coloniais, uma vez que hoje o leite de coco que molha a tapioca conhecida como “tradicional” é herança portuguesa trazida da Índia!

 

Bibliografia Referencial:

Bezerra, Celina Portugal.  Dos Passos de Gazela de Iracema ao Ratro do Capital: o Cotidiano das (os) Tapioqueiras(os) de Messejana – Fortaleza-CE. Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Geografia do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em geografia, Fortaleza, 2005.

Montanari, M.(2008). Comida Como Cultura, São Paulo: editora Senac.

MARQUES, Tereza Maria Pacheco marciTapioqueiras de Messejana – Ceará: História, Patrimônio Cultural e Gastronomia de Comunidades / Tereza Maria Pacheco Marques – Fortaleza, 2010.

19. maio 2013 by admin
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