A Comida dos Outros na Experiência Turística

Por Uiara Martins

A reflexão que quero apresentar no texto de hoje surge no contexto de algumas viagens que tenho tido oportunidade de fazer. Nestes momentos, procuro sempre experimentar tudo o que consigo, mas não é gula, é curiosidade! As últimas aventuras foram na Espanha, nas cidades de Coruña, Santiago de Compostela, Tui, La Guardia, Granada e Valladolid. Mais acostumada com a gastronomia portuguesa, que tem muita similaridade com a gastronomia brasileira, comecei a perceber como os pratos que ofereciam um paladar completamente diferente poderiam ser tão deliciosos.

Mas para perceber isso tive que, de algum modo, ser influenciada pelos amigos espanhóis, foi preciso ouvir: “é bom, experimenta”, porque nem sempre os ingredientes ou o modo de apresentação dos pratos me agradavam. Logo, como turista comecei a pensar sobre esta questão de “como a comida do outro pode ser um atrativo ou um impedimento para vivenciar a minha experiência turística”? No meu caso não foi difícil, porque estava acompanhada de nativos que podiam me dizer tudo, mas o turista que não tem esse suporte como faz?

Existem alguns estudos que tratam desses assuntos com maior profundidade do que trataremos aqui neste texto (ver bibliografica indicada). A inteção de hoje é de provocar uma reflexão sobre esta temática, colocando-nos como turistas ou como agentes que organizam e desenvolvem o produto gastronômico. Neste contexto, procurarei chamar atenção para alguns aspectos que por muitas vezes nos passam despercebidos e que podem ajudar a transformar a experiência turística em algo negativo.

Nos estudos que se encontram sobre a questão dos fatores que interferem no consumo dos alimentos, muitos autores como (Gains, 1994; Meiselman et al, 1999;. Randall e Sanjur,1981; Shepherd e Raats, 1996) comungam da opinião de que pelo menos três principais intervenientes são responsáveis pela escolha. São eles: o indivíduo, a comida e o ambiente. No caso do Turismo, Mak et al(2011) adaptaram o modelo de Randall e Sanju(1891) e o construiram da seguinte forma:

Pela complexidade apresentada na figura, pode-se identificar que há diversos fatores que podem vir a interferir de forma mais ou menos expressiva na escolha do turista. Entretanto, Mak Et al (2011) sublinham ainda que estes fatores podem dividir-se em cinco potenciais categorias: influência culturais e religiosas, comida relacionada com a personalidade, fatores sócio demográficos, experiências anteriores e fatores motivacionais.

Do lado da oferta, os destinos precisam encontrar soluções que despertem o interesse do turista e também possam evitar problemas de rejeição da gastronomia típica. Talvez a primeira atitude a ser tomada é procurar conhecer quem é o seu potencial turista, para que a oferta gastronômica possa ser trabalhada minimamente de acordo com as preferências deste. Não falo aqui de retirar ingredientes ou adaptar ingredientes, isso tiraria a originalidade e a autenticidade dos pratos típicos. Mas, a partir dos estudos desenvolvidos com os turistas em potenciais, procurar orientar os restaurantes que têm foco em públicos turísticos a ter o mínimo de sensibilidade com as diferenças culturais e os estômagos que nem sempre estão preparados para o novo.

Recordo-me da minha tese de mestrado, quando estudei as preferências dos turistas portugueses relativamente à gastronomia brasileira. Ouvi muito a mesma reclamação: “ Vocês deixam os alimentos muito fritos ou muito grelhados”, dentre muitas outras. Situações como essas podem ser controladas pelos restaurantes e acabam por agradar mais o turista.
Gosto muito de ver os materiais com base na gastronomia escocesa criados pelo “tourism intelligence Scotland”, porque trazem informações relativamente à comida que podem parecer básicas, mas são essenciais para qualquer turista. É mais interessante ainda perceber que, através do seu público-alvo, conseguem dar sugestões relativamente a pratos que os turistas de determinada cultura vão apreciar ou não, como se pode ver no exemplo abaixo:

Apesar de não nos aprofundarmos muito nas teorias ou focarmo-nos nas categorias apresentadas pelos autores, as quais influenciam a decisão dos turistas, podemos concluir que, para os destinos que queiram trabalhar a gastronomia como produto turístico, é preciso desenvolvê-la tendo em conta estes fatores, sendo alcançada se procurando conhecer melhor quem é o seu turista, o que a cultura dele permite ou não, quais os problemas que ele pode vir a ter com determinados tipos de ingredientes etc.
Diferente de outros produtos ou atrativos que podem ser dispensados se o turista gosta ou não, a alimentação se diferencia porque faz parte de uma necessidade básica humana, tornando-se, desse modo, um elemento essencial na experiência turística.

Um agradecimento especial aos Amigos Espanhóis que me proporcionaram conhecer um pouco mais desse país maravilhoso! Marcos Martinez, Miguel Ángel, Andrez, Carmen, David, Miriam , Raquel e Juan!

Bibliografia referencial

Cohen, E., Avieli, N., 2004. Food in tourism: attraction and impediment. Annals of Tourism Research 31 (4), 755–778.
Gains, N., 1994. The repertory grid approach. In: MacFie, H.J.H., Thomson, D.M.H. (Eds.), Measurement of Food Preferences. Blackie Academic and Professional, London, pp. 51–76.
Mak, A.H.N., et al., 2011. Factors influencing tourist food consumption. Int. J. Hospitality Manage.
Meiselman, H.L., Mastroianni, G., Buller, M., Edwards, J., 1999. Longitudinal measure-ment of three eating behavior scales during a period of change. Food Quality and Preference 10, 1–8.

Randall, E., Sanjur, D., 1981. Food preferences: their conceptualisation and relation-ship to consumption. Ecology of Food and Nutrition 11 (3), 151–161.

Shepherd, R., Raats, M., 1996. Attitudes and beliefs in food habits. In: Meiselman, H.L., MacFie, H.J.H. (Eds.), Food Choice, Acceptance and Consumption. London, Chapman and Hall.

14. fevereiro 2013 by admin
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