Lembranças comestíveis

 

Saudades da comida da mãe? Ou da avó? Quem nunca passou por isso, não? Quem não tem uma comidinha de infância que é a melhor iguaria já provada na vida? E que nunca ninguém conseguiu reproduzir tão bem? Todos temos comidinhas (ou bebidinhas) que possuem um “lugar especial” nas nossas memórias, lembranças com forma, cor, cheiro e sabor específicos!

Assim como no livro Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, onde uma madaleine é capaz de desencadear uma série de lembranças, cheiros, sabores e sensações relacionadas ao ato alimentar impregnam uma série de recordações. Uma iguaria pode despertar uma lembrança, assim como uma lembrança pode trazer à tona as sensações de uma determinada iguaria, como se ela realmente estivesse em nossa boca, estimulando nossas papilas gustativas naquele momento.

Porque isto ocorre?

Como argumenta Roberto da Matta (1987, p.22), é fundamental entender que […] comer cristaliza estados emocionais e identidades sociais. Recorremos à comida para termos “combustível” para o nosso corpo, mas também para nos religarmos ao passado, para nos sentirmos melhor em momentos difíceis e também para dizermos quem nós somos. Comer também é uma forma de consumo simbólico (Schutler, 2003). Pela preferência por carne de bode podemos, por exemplo, deduzir a origem de um determinado brasileiro. Da mesma forma, o hábito de comer insetos facilmente identificaria um sujeito como estrangeiro, tendo em vista que esta prática não é adequada aos nossos hábitos alimentares.

A formação dos hábitos alimentares está expressamente ligada à história do indivíduo, sua infância, sua família e aos momentos iniciais de socialização que contribuíram para a formação do sujeito como ele é. Para Luce Giard (1994 p.250), os indivíduos tendem a ficar identificados a hábitos alimentares de sua infância: alimentos que eles se habituam a comer desde a tenra idade e se estendem ao longo de sua vida cotidianamente. Assim, como observa Igor de Garine, […] os indivíduos se sentem emocionalmente ligados aos hábitos de sua infância, em geral marcados pela cultura tradicional (GARINE, 1987, p.5). Por consequência,  [...] o comportamento relativo à comida liga-se diretamente ao sentido de nós mesmos e à nossa identidade social, e isso parece valer para todos os seres humanos (Mintz, 2001, p.31).

O ato de comer como forma de expressão de um estado emocional ou de reafirmação identitária é algo que sempre existiu, mas que vem ganhando destaque diante da valorização de uma culinária mais “autêntica” face ao artificialismo da industrialização alimentar em expansão. Há alguns anos, inclusive, foi criado um jargão específico: comfort food.  -

Comfort Food é uma expressão em inglês que designa comidas simples, geralmente de fácil preparo, de baixo custo e de caráter caseiro – ou cuja preparação preserve o toque caseiro – e que proporcionam ao indivíduo uma sensação de conforto físico e emocional. Uma comida que nutre o corpo e também a alma, que acolhe o indivíduo e o remete a um universo de boas lembranças. A “comida conforto” é aquela envolta por  uma nostalgia familiar, um sentimento de segurança emocional e de retorno a algo (ou algum período) que se deseja recuperar.

No filme Ratatouille (2007), a cena em que o crítico gastronômico Anton Ego prova o Ratatouille (um cozido rústico francês feito a base de vários legumes) preparado pelo ratinho Remy e é transportado para sua infância, tendo uma experiência emocional, é um exemplo clássico de Comfort Food.

Isto aponta, inclusive, para outra característica importante da Comfort Food: seu referencial é cultural, e também pessoal. No Brasil, uma canja de galinha, um cozido ou um bolo de fubá são exemplos de comfort food bastante citados, mas é preciso lembrar que no contexto dos hábitos alimentares as preferências individuais se inscrevem um contexto cultural maior. Assim, um morador de Morretes, no litoral do Paraná, pode ter no Barreado seu comfort food, enquanto um morador do litoral baiano, que desconhece por completo o prato paranaense, pode eleger uma boa moqueca como seu prato emocional.

O mais interessante é que o Comfort Food tem se tornado cada vez mais comum em cardápios de restaurantes de diferentes categorias – inclusive up scales – em grandes centros urbanos, no Brasil e no exterior. Respeitando as referências culturais locais, esse movimento de valorização de uma gastronomia mais “humana” tem se tornado tendência, e merece e deve ser aproveitado no contexto turístico. Se a gastronomia é uma experiência tátil, olfativa, gustativa, social e emocional, porque não valorizá-la também como uma experiência cultural e turística? A diversidade e a riqueza gastronômica do Brasil oferecem milhares de oportunidades.

Maria Henriqueta Gimenes Minasse é bacharel em Turismo, Mestre em Sociologia e Doutora em História. Apaixonada por gastronomia, é professora do Curso de Turismo da Universidade Federal de São Carlos – UFSCAR.

 

Bibliografia Referencial:

DA MATTA, R. Sobre o simbolismo da comida no Brasil. In: O Correio, Rio de Janeiro, v.15, n.7, jul.1987.

GARINE, I. de. Alimentação, culturas e sociedades. In: O Correio. Rio de Janeiro, v.15, n.7, p. 4-7, jul. 1987.

GIARD, L. Cozinhar. In: CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano – morar, cozinhar. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996, p.211-332.

MINTZ, S. W. Comida e antropologia – uma breve revisão. Revista brasileira de ciências sociais, Rio de Janeiro, v.16, n.47, out. 2001.

SCHLÜTER, R. Gastronomia e turismo. Barueri:Aleph, 2003.

 

30. setembro 2012 by admin
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