Culinária, cultura e história dos botecos brasileiros

 

A relação entre culinária, cultura e história está “na moda”. No contexto de um mundo globalizado, onde a cultura alimentar passou e passa por diversos intercâmbios, trocas, fusões ou até perdas, é natural que venha emergir nas sociedades uma reação contrária a este movimento, ou seja, a preservação ou maior valorização da culinária típica.

O interesse pela história dos alimentos, pelos modos como são preparados, pela origem das receitas, dentre muitos outros fatores, já não é curiosidade apenas dos turistas que buscam conhecer um pouco da cultura do local visitado, mas fazem parte do nosso quotidiano. Constantemente encontram-se publicações em jornais, revistas, em programas de televisão, novelas, para além do grande interesse que tem surgido nas pesquisas científicas acerca de tudo aquilo que a culinária representa em nossas vidas.  E assim, cada vez mais passamos a estar informados sobre o que comemos…

O dicionário da língua portuguesa diz que a culinária é a arte de cozinhar, ou seja, confeccionar alimento. Considero que a culinária não seja apenas técnica, ela é um processo cultural, assim como bem explicou Claude Lévi-Strauss na obra O Cru e o Cozido e no texto o Triângulo Culinário”. Cultural porque não é preciso apenas de técnicas para preparar um alimento, mas de conhecimentos que fazem a diferença… Cultural porque o homem interfere no processo de confecção… Cultural porque o homem cria afetos pela comida… Cultural porque, em muitos casos, os alimentos são símbolos que representam a cultura alimentar da população e por diversos outros fatores que poderiam ocupar muitas páginas deste texto.

São esses fatores que me fazem entender o porquê de, em tão pouco tempo, o interesse pela culinária típica ter crescido absurdamente.  No caso do Brasil, um olhar focado para os botecos demonstram exatamente isso.  Espaços típicos para encontros de boêmios, para conversar com amigos, para beber cervejas, aguardentes e comer comidas típicas (o velho tira-gosto) etc. Até uns 10 anos atrás, estes espaços não eram tão apreciados de um modo geral, principalmente por muitas vezes se tratarem de estabelecimentos que não proporcionam tanto conforto e higiene como os restaurantes.

E por que esse espaço é tão apreciado? O que há na comida preparada aí? O porquê do gosto por esse espaço eu deixo para você responder. Mas o que a comida dos botecos oferece é um alimento que se chama “nostalgia”, que toca num sentimento de saudade de algo que você ou seus antepassados viveram. Essa nostalgia funciona tanto num contexto local como internacional. Quantos nordestinos que vivem na Região Sudeste hoje comem bolinhos de abóbora com carne seca, escondidinho de mandioca, outros petiscos feitos com tapioca, para recordar aquilo que são os principais produtos da alimentação típica nordestina! Quantos portugueses procuram os botecos cariocas para comer um bolinho de bacalhau, um cozido à portuguesa e fazer uma viagem às terras lusas através do paladar…

Em pesquisa na internet, tenho encontrado uma grande diversidade de botecos, principalmente na região Sudeste do país. Entretanto, me parece que os seus proprietários têm a mesma sensibilidade e não só oferecem a culinária típica já conhecida, mas inovam muitas vezes, criando novos petiscos, compostos por produtos locais.

O texto que propomos hoje é um fio condutor para o vídeo visto acima produzido por Gabriel Petrone e Thiago Correia (exclusivo para o nosso blog) e que, de modo mais prático, nos permite entender esse local de nostalgia que muito preserva e é capaz de revelar parte da nossa cultura alimentar. Penso ainda que seria uma boa ideia usufruir desse boom dos botecos, para nos aprofundar no conhecimento sobre a culinária típica brasileira e assim desmitificar muitas histórias mal contadas por aí…

 Uiara Martins

Gabriel Petrone é cozinheiro e faz parte da equipe do Projeto Sapoti no Rio de Janeiro, ele é Mestre em Ciências Gastronômicas pela Universidade Nova de Lisboa.
Thiago Correia é jornalista e trabalha Lancenet também no Rio de Janeiro.

23. setembro 2012 by admin
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