Cozinha Pós-Moderna

 

É característica da pós-modernidade as coisas não serem o que se acha ou o que verdadeiramente são. O telefone não é mais telefone, as cidades não são cidades, a feijoada não é mais feijoada, o João não é mais João (essa só para os recifenses). Parafraseando Manuel Bandeira, o que a comida errada do povo, comida certa do povo demorou séculos para instituir, uma simples lecitina de soja pode com a mesma eficácia que levanta um ar (espuma), jogar tudo abaixo.

Passados 4 anos de trabalho dentro de uma cozinha Portuguesa, tentando talvez compreender a existência de uma linha tênue luso/Brasil e, os contributos indispensáveis para formação da Cozinha Brasileira, que segundo Maciel (2004 ) é o resultado de um processo histórico, o qual traz em si elementos das mais diversas procedências que aqui foram modificados, mesclados e adaptados, chego a constatação do porquê os passaportes brasileiros serem os mais caros no mercado negro.

Jaca, Manga, Coco e até o nosso querido Sapoti, quem diz que não são frutas brasileiras? O Sapoti, que de acordo com Gil (2005), também chamado de sapota, é originária da América Central e Sul do México, foi levado pelos espanhóis para a Filipinas e hoje é plantado em toda a região tropical da Ásia. Não são na Origem mas no uso e costume o são. Muito do que é o nosso Brasil, do que é pós-moderno e do rumo que a cozinha vem tomando. Pensar que está comendo uma coisa sendo outra, reinventar o já inventado.

Essa Miscigenação, tão clara quando Freyre (1939), por exemplo diz que a Cozinha Pernambucana, marcada pelo equilíbrio das três tradições nasceu debaixo dos cajueiros, desenvolveu-se à sombra dos coqueiros, com um canavial sempre de lado a lhe fornecer açúcar em abundância, foi um ponto de partida da nossa cozinha  mas não deve ser vista de forma estática, é dinâmica. Essa constante modificação e a adaptação deve ocorrer, lógico, mas  de forma natural e espontânea. Se faz necessário entretanto, primeiramente a compreensão do todo para que os texturizantes, agar-agar, esferificações… não sejam impostos e, sim, caso se façam necessários, serem assimilados como nosso da mesma forma que o Sapoti o foi.

 

Bibliografia Referencial:

Freyre, G. (1939). Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo.

Gil, F. (2005). Frutas: Sabor a primeira mordida. Editora Senac São Paulo, São Paulo.

Maciel, M. (2004). Uma cozinha à brasileira. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, Vol. 33, p. 25- 39.

 

Thiago das Chagas

 

 

03. junho 2012 by admin
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