Nós descobrimos o Brasil e ele colonizou-nos

Estou cansado de ouvir a velhinha história como enganamos os espanhóis no tratado de Tordesilhas, dando-lhes as Canárias em troca, do então, desconhecido Brasil. A razão de nos auto-repetirmos é porque adoramos este país. Estou convencido que os Portugueses olham para o Brasil com mais respeito e carinho do que para as suas regiões autónomas. Aliás, muitos ainda acham que é tão, ou mais português, que o Algarve. Ou então, apenas temos o desejo que fosse (se trocassem o Rio de Janeiro pela Quarteira, pelo menos eu, não me importava nada).

Há mais de 500 anos fundeamos por aquelas bandas e nunca mais deixamos de ir lá. Adoro o Brasil, mesmo quando eles dizem que prefeririam ter sido colonizados por Ingleses, em vez de tugas. Há aqui que dar um desconto aos Zucas.  São bons, mas também um pouco ignorantes. Se tivessem sido colonizados por nerds e hooligans britânicos, a única coisa que manteriam de bom seria jogar à bola. Se os bifes tivessem lá chegado primeiro, beberiam cerveja quente numa praia com 32º  e apenas comeriam moqueca frita com macaxeira frita. Em vez de carnaval na rua, estariam dentro de pubs a beber todas as tardes.

Nós ensinamos-lhes a corrupção, mas também o bem comer e beber. Principalmente, porque Portugal não se resume apenas a uma região no cu da Europa. Com a globalização, pode não ser um império político, mas é certamente gastronómico. Todas essas influências fizeram do Brasil uma grande potencia culinária. Já colonizou Portugal e prepara-se para conquistar o mundo. Para além de culturalmente, com novelas, filmes, música e até literatura, fomos apoderados pelo Brasil gastronomicamente. O pior é que odeio algum deste domínio de produtos comercialmente mal feitos. Os rodízios de carne dura e seca nasceram como cogumelos e passei a repudiar uma bebida fantástica como a caipirinha.

Há muito mais, gastronomicamente, no Brasil, que feijoada, banana frita e carne grelhada. Os portugueses levaram influências culinárias de África, Ásia e até Oceania originando a primeira e verdadeira cozinha de fusão.

No norte do Brasil, riquíssimo em história, há um mundo culinário ainda por descobrir. Uma fusão de cozinhas indígenas, europeias, africanas e asiáticas. Conhecem outro lugar no mundo assim? É verdade que deixamos um mau legado de organização política e social ao Brasil. Mas quando estamos à mesa, até os Brazucas acham que valeu a pena.

Bernardo Mendonça
Empresário da Restauração em Lisboa,  conceptor e propagador do conceito “ Baixa Cozinha Portuguesa”. É Licenciado em Economia pela UNL, frequentou no IST, um MsC em Engineering Policy and Technology Management e está concluindo um Mestrado em Ciências Gastronómicas (ISA e FCT/UNL) .

21. julho 2011 by admin
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