“Quase nada estava igual como era antes”

 

A trajetória da pessoa, com quem ela conviveu e andou é capaz de refletir muito dos seus hábitos, práticas e predileções. Comigo, não foi diferente. Pela passagem em terra originária dos caldos restauradores, tatuei no meu paladar um gosto especial, pelas sopas, em especial às portuguesas, como a Sopa de Tomate com ovo escalfado, do tradicional Caldo Verde, da Sopa da Pedra, entre outras. E agora, como conviver sem elas? Ao pisar em Recife, cuidei logo de matar minha saudade do mar da Boa Viagem e deparar-me com a solução dos meus problemas: R$ 2,5 é o seu valor. Um batalhão de “sopeiros”, diga-se vendedores de caldinhos trataram logo de me acalmar. Na verdade, a função dos caldinhos pernambucanos, além de serem um perfeito acompanhamento da cachaça ou da estupidamente gelada cerveja, igualmente como na terra além-mar, cumprem a função de proporcionarem um maior conforto térmico. Sim, lá reconfortam o corpo contra o frio e aqui a grande popularidade desses “caldos refrescativos” provavelmente se deva por provocarem a sudorese, dando um alívio na sensação de calor do ambiente, sensação igualmente plausível atribuída ao uso da pimenta em regiões de clima quente (Índia, México, Marrocos, Norte e Nordeste do Brasil etc).

A segurança em saber que depois de quatro anos quase nada se modificou, a não ser as taxas de juros, que pasmem, todo dia caem, saber que tudo estava igual como era antes nos trás um misto de tranquilidade com descontentamento, de alegria com inquietação. Poder constatar pessoalmente, já em um rápido estágio de uma semana, que a Cabidela de Dona Mira, que é considerada a imperatriz da Cozinha do Estado Pernambucano continua “inoxidável”, sem dúvida, é uma alegria. Já continuar a ler e ouvir de forma um tanto quanto inocente mas talvez prejorativa que este tipo de cozinha praticada por ela é apenas e exclusivamente uma Cozinha Regional me leva a alguma reflexão. Não que não seja, mas o Regional implica que ela é típica, originária de algum lugar. Todos os lugares há a sua comida regional, o uso do só  Cozinha Regional passa muito da idéia de que esta deve ficar confinada exclusivamente a sua região e que ela não pode ganhar o mundo. Um Cozinha Regional Pernambucana ou um simplemesnte Cozinha Pernambucana já seriam de bom tamanho.

“Tudo estava igual como era antes, quase nada se modificou”, este pequeno refrão da música O Portão, de Roberto Carlos, (hit mais executado por todos os imigrantes NFC -Non Filhos de Chocadeiras – que um dia acalentam regressar para sua terra mãe) expressa e resume um pouco daquilo que talvez seja, para muitos, o essencial da vida: o sôssego, a segurança, o vínculo e ligação a algo, a alguém, a algum lugar e a algum sabor.

Thiago das Chagas

29. abril 2012 by admin
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