COZINHA ESTÉRIL

 

Dentre os trabalhos manuais e afazeres diários de um cozinheiro, o processo criativo de elaboração de um novo prato talvez seja a atividade mais árdua e igualmente gratificante. De forma resumida o prato deve aglutinar e reunir logicamente um sabor inenarrável, uma apresentação ímpar e um conteúdo. Sim, este, o conteúdo, que talvez pela efemeridade do mundo moderno vem sendo cada vez mais renegado sempre em detrimento da forma.

O latente interesse dado cada vez maior à cozinha parece limitar-se a levá-la a condição de ambiente gourmet em projetos arquitetônicos, à restaurantes com cozinha “aquário”, ao chef boa pinta que passa pelas mesas. O conteúdo, digo, o que está por trás do balcão, seja no processo de elaboração do prato, sua composição histórica, antropológica, a técnica empregada e até mesmo quem são os fornecedores do restaurante deve se configurar, cada vez mais numa posição de igualdade com os demais elementos tangíveis de um prato.

Se a ideia é fundir diversos elementos e culturas distintas, acho válido, mas definitivamente eu não conseguiria. Hoje, aquela máxima de que se não se sabe para onde vai qualquer caminho serve é a mais acertada e corriqueira no mundo dos tachos. Tenho uns avós Italianos e morei um tempo na Grécia… assim, eu teria que me especializar em comida do Congo. O berço indiscutivelmente é o principal elemento facilitador de todo este processo, perpassa, sustenta, transcende qualquer Fita Azul, é o que nos possibilita sentir, interpretar e reinterpretar de forma verdadeira todo o legado de um povo através de um simples prato. Além do que, fazer cozinha vai muito além do que executar com maestria um prato, é vibrar com a frescura do produto, é ser padrinho do filho do seu fornecedor de hortaliças, é defender uma região.

Ninguém cria algo verdadeiramente novo do nada. Muito embora seja “apercebida” por alguém como novo, já bastando para ser assim classificada como algo Inovador, mas o enraizamento, conhecimento e ligação à algo é condição sine qua non para o desencadeamento de uma ideia amarrada, com fundamento e que seja realmente nova. O décimo quinto andar só é construído depois do décimo quarto. O edifício pode cair, mas nesse caso nunca por uma falta de base sólida ou cálculo errado.

 

Thiago das Chagas

04. março 2012 by admin
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