Gastronomia, Turismo Cultural e Desenvolvimento Sustentável no Brasil

 

último texto de Thiago das Chagas apresentou como se relacionam a gastronomia e o desenvolvimento sustentável. Dentro dessa interação, há alguns fatores que podem colaborar para que esses dois elementos estejam cada vez mais integrados, dentre eles, a atividade turística.

A relação turismo e desenvolvimento sustentável é muito questionada por vários casos de destinos que foram se desintegrando, perdendo sua identidade, cultura, dentre outros aspectos, pela falta de planejamento, mas não é isso que vamos refletir hoje aqui e, sim, o potencial que tem a gastronomia como produto turístico de desenvolver a comunidade local.

O tipo de turismo que mais aproxima essa fusão da gastronomia, do desenvolvimento sustentável e comunidade local é sem dúvida o turismo cultural. A gastronomia como produto turístico-cultural supera os aspetos nutricionais e apresenta a identidade simbólica ligada aos alimentos, aos aspetos geográficos, dentre outros fatores.

A literatura trata muitas vezes a gastronomia como o segmento turístico isolado, ou seja, o turismo gastronómico (Food, Tourism, Culinary Tourism, Gastronomic Tourism), definindo-o “como uma visita aos produtores de alimentos primários e secundários, festivais de gastronomia, restaurantes e locais específicos para os quais a prova de alimentos e/ou experimentação dos atributos de especialistas em produção de alimentos de uma região são a principal motivação para viajar”. Hall et al(2003)

Penso que esse conceito é muito restrito para abordar toda a complexidade que se encontra em torno dos alimentos. Por isso, neste texto, procuro entender a gastronomia como segmento do turismo cultural, por ser este conceito mais amplo, que envolve não apenas fatores económicos, sociais, de motivação, mas ainda diversos fatores ligados à simbologia dos alimentos, a identidade etc.

O produto gastronómico revela-se cada vez mais importante nos destinos turísticos e a sua procura é motivada pela busca de encontrar o genuíno, as raízes culinárias, ou seja, aquilo que traduz a cultura alimentar da população local (Azambuja, 1999).

A mudança de sentidos do alimento de necessidade para prazer revela a gastronomia como produto turístico, inclusive por que os turistas, em sua grande maioria, procuram provar os pratos típicos e tudo aquilo que é diferente do que estão acostumados a consumir quotidianamente, até como forma de conhecer a cultura local. (Santos 2007).

A gastronomia como produto turístico pode ser explorada de diversas formas e em contextos diversos, como em rotas turísticas, eventos gastronómicos, feiras etc. Alguns países já são conhecidos por desenvolver como “produto turístico-chave” a gastronomia. É o caso, por exemplo, da França, que se revela como uma importante referência para outros destinos, não somente pela qualidade na produção dos alimentos e dos vinhos, mas com a sua tradição nas escolas culinárias, restaurantes de “alta gastronomia” e alguns gêneros alimentícios com grande representatividade, como os 246 tipos de queijos e o patê de foie gras (Fagliari, 2005).

Em uma recente investigação a diversos destinos que tem a gastronomia como produto âncora na atividade turística, pude perceber um aspeto que me levou a trazer esta reflexão para o blog. No desenvolvimento do produto gastronómico em todos os destinos turísticos, a comunidade local está sempre presente. É natural que para apresentar a cultura local através da gastronomia haja o envolvimento da população. Entretanto, o que mais me impressionou foi a interação de órgãos públicos e privados com a comunidade local, que fazem destes destinos casos de sucesso.

Falando de Brasil, acredito que no âmbito do turismo cultural, a culinária típica brasileira surge como um produto em potencial, pela matriz histórico-cultural em que se desenvolveu e a qual lhe permitiu uma fusão que a torna única, e esse fator para a atividade turística é essencial.

O Brasil é um destino que já trabalha um modelo de turismo sustentável, em que alguns dos produtos estão ligados com a comunidade local. Deste modo, desenvolver a gastronomia como produto turístico será mais um fator a dar continuidade a este modelo de desenvolvimento, que favorece não somente a economia, mas principalmente as comunidades locais nos aspetos culturais, identitários,  dentre muitos outros.

 

Uiara Martins

Bibliografia Referencial:

Azambuja, M. 1999, A gastronomia enquanto produto turístico. Turismo de urbano. Cidades, sites de excitação turística. Edição dos Autores, Porto Alegre, pp. 84-92.

Fagliari, G., 2005, Turismo e Alimentação, Roca, São Paulo.

Hall, M. et al 2003 “Food Tourism- development, management and markets”, Oxford. Edited by Elsevier Science.

Santos, C., 2007, Somos Los Que Comemos – identidad cultural, hábitos alimenticios y turismo, Revista Estudios y Perspectivas en Turismo, Vol. 16, pp. 234-24.

 

23. janeiro 2012 by admin
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