O papel da mulher portuguesa na colónia – A Influência da Gastronomia Portuguesa no Brasil (parte-II)

Dando continuidade ao percurso em que traçamos no ultimo texto que publiquei, o qual expus brevemente alguns dos principais produtos, técnicas e receitas deixados pela herança portuguesa na formação da cozinha brasileira, passamos hoje a falar sobre um elemento que foi essencial para esta contribuição: a mulher portuguesa.

Inicialmente, precisamos perceber o papel que esta mulher exercia dentro da sociedade colonial brasileira. No início da colonização, a situação das mulheres vindas de Portugal era muito confortável, frente à opressão que viviam as mulheres européias daquele período. Facto este que se justifica pelo número bastante reduzido de mulheres na colónia, deste modo as que lá viviam eram bastante valorizadas. (Fernades, s/d, p.1).

Entretanto, com a colonização definitiva do Brasil, esta situação veio a mudar, isso porque os portugueses trouxeram para o Brasil a igreja para organizar e dar regras à sociedade. Deste modo, a igreja impôs às senhoras uma nova conduta que lhes tirava a liberdade em que viviam anteriormente e lhes sujeitava a um confinamento caseiro. (Fernades, s/d, p.1).

No Brasil colonial, a diferenciação parecia estar em todas as esferas, desde o modo de se trajarem até nos tipos que se estabeleciam. A sociedade patriarcal agrária extremava essa diferenciação, criando um padrão duplo de moralidade, no qual o homem era livre e a mulher, um instrumento de satisfação sexual. Esse padrão duplo de moralidade permitia também ao homem desfrutar do convívio social, dava-lhe oportunidades de iniciativa, enquanto a mulher cuidava da casa, dedicava-se aos filhos e dava ordens às escravas.”(Cerdeira, s/d, p.3)

Cumprindo este novo papel social que lhe foi imposto, a matrona, que agora é “dona de casa”,  passa a se dedicar a outras actividades dentro deste espaço, dentre eles a cozinha. No período colonial em que foi marcado pelo regime patriarcal, a mulher apenas obedecia a seu pai ou a seu marido (Cerdeira,s/d). Entretanto, essa situação não era igual na cozinha. Era neste espaço, um dos poucos locais onde as senhoras portuguesas podiam exercer seu poder. Ora essas senhoras tinham ao seu serviço índios e escravos e permaneciam naquele espaço para ensinar aos seus criados as técnicas e receitas européias.

De acordo com Silva (2006, p.16) “… foi nas cozinhas da casa-grande e no seu entorno – as hortas, pomares e quintais – que as senhoras portuguesas se viram obrigadas a transformar e adequar seus hábitos mais íntimos, jogando fora os fogões e chaminés de estilo francês e servindo-se das possibilidades indígenas e negras de cozinhar fora da casa, sobre o “puxado”, limpando e cortando a carne no jirau (armação de madeira), e utilizando os métodos de assá-las ou defumá-las no moquém (grelha de varas). Pelos documentos, enxerga-se a utilização de muitos espaços como cozinha, e que mudavam conforme o tempo e o cardápio, permanecendo, em geral, a “suja”, do lado de fora, onde se cortava e limpava as carnes e onde se preparavam os doces demorados, como a goiabada e a marmelada, e a de dentro ou “limpa”, onde se fazia toda sorte de doces finos”.

Apesar de uma estrutura patriarcal rígida no período colonial, a cozinha era um espaço pacífico de convivência, isso “por uma necessidade de ter com quem conversar, as mulheres [brancas] da casa iam para a cozinha“,. Essa pseudo-liberdade do negro fora do campo, aliada aos momentos de ócio que o trabalho de casa propiciava, foi responsável pelo surgimento de pratos complexos”. Sender e Gaspar(s/d, p.2)

Quintas (2005,p.9) relata que este espaço funcionava como um “oráculo de confissões, de fuxicos, de troca de sigilos. Zona de confraternização. Locus de intercâmbio afetivo. Na “sagrada” cozinha, a conversa mole, os mexericos, os segredos, o disse-me-disse ganharam a moldura da intimidade. Entre o preparo de um prato e de outro, muitas narrativas foram verbalizadas. Tanto quanto o confessionário, o suposto esconderijo do fabrico das guloseimas, simbolizou o canal catártico por onde escoraram conversações em tom pessoal, segredos recônditos, mistérios femininos. Debaixo do manto da solidão, a larga e tosca mesa retangular agasalhou os dispensáveis pudores de mulheres acanhadas. Lugar de especial atrativo para o transbordamento de dizeres porventura perigosos ou pecaminosos”

Câmara Cascudo, antropólogo brasileiro que escreveu a História da Alimentação no Brasil, não reconhece ser grande a presença da mulher portuguesa na cozinha, facto este que talvez se justifique por não serem elas a porem as “mãos na massa”. O que é certo é que as técnicas de confecção, o sal e o açúcar são grandes contribuições dadas pelos portugueses e que considero indispensáveis para a formação desta cozinha. Dentre muitas outras receitas, que foram levadas por estas senhoras, principalmente no que toca a doçaria.

De acordo com Freyre (1997) em O Açucar, só o grande lazer das sinhás ricas e o trabalho fácil das negras e das molecas explicam as exigências de certas receitas das antigas famílias das casas-grandes e dos sobrados; receitas quase impossíveis para os dias de hoje.

Com a chegada da família real e de toda a corte portuguesa ao Brasil em 1808, a situação feminina na colónia passa novamente por algumas mudanças:

Com o processo de urbanização, a vida da mulher pertencente à elite dominante começa a se modificar. Ela não mais permanece reclusa à casa-grande, freqüentando festas, teatros e indo à igreja, o que possibilita um aumento em seus contatos sociais. Sua instrução geral, porém, permanece desvalorizada, uma vez que a sociedade espera que ela seja educada e não instruída. À sua educação doméstica acrescenta-se o cuidado com a conversação, para torná-la mais agradável nos eventos sociais”.(Cerdeira, s/d, p.7)

Possivelmente essa mudança no comportamento das mulheres da colónia pode ter iniciado o desinteresse das mulheres portuguesas pela cozinha. Em Região e Tradição, Gilberto Freyre reclama esse facto e  associa-o ao final da casa-grande e a liberdade dada as moças, que deste modo não conservaram muitas técnicas e tradições deixadas pelos seus antepassados.

Por fim, vale ressaltar nas palavras de Dutra (2005, p.34) que, “na sociedade brasileira em geral, a base técnica manteve-se portuguesa, pois foram essas mulheres que ensinaram às cunhãs e mucamas a cozinhar na casa-grande e no sobrado”.

Uiara Martins

Esse texto é parte integrante de uma tese de doutorado em Estudos Culturais, que esta a ser desenvolvida na Universidade de Aveiro –Portugal.

Bibliografia referencial:

Cascudo, L., (2004), História da Alimentação no Brasil, São Paulo, editora Global

Cerdeira, C.(s/d),Os Primórdios da Inserção Sociocultural da Mulher Brasileira”, disponível em:

http://www.unibero.edu.br/download/revistaeletronica/Mar04_Artigos/Cleide%20B%20Cerdeira.pdf

Dutra, R, (2005). “Cozinha e Identidade Nacional: notas sobre a culinária na formação da cultura brasileira segundo Gilberto Freire e Luis Câmara Cascudo”. Anais Seminário Gastronomia em Gilberto Freire, Fundação Gilberto Freire, Recife.

Fernandes, M. (s/d),“O Papel da Mulher na Sociedade Brasileira: Da Sociedade Colonial aos Dias Atuais”, Disponível em:

www.monteirolobato.com.br/material/palestra_miriam.doc

Freire, Gilberto, (1997), Açucar,  São Paulo, Companhia das Letras.

Quintas, F., (2005), “A Culinária e a Negra”, Anais Seminário Gastronomia em Gilberto Freire, Fundação Gilberto Freire, Recife

Sender, A. e Gaspar, G.(s/d), “Um pouco de história não faz mal a ninguém…Pelas portas da cozinha”-, disponível em

http://www.rotadoacaraje.com.br/pela_porta_da_cozinha.htm

Silva, P., (2006), “ A Cozinha Colonial – sabores do Brasil”, Revista nossa história, ano3, n°29, março, PP 20-23.

19. setembro 2011 by admin
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