Quem comia o quê, no início do Brasil? (I)

Padre jesuíta, Fernão Cardim chegou à Bahia em 1583, onde morou, com breves interrupções, até sua morte, 41 anos depois. Entre 1583 e 1601, escreveu os Tratados da Terra e Gente do Brasil, livro repleto de informações sobre os hábitos alimentares da colônia portuguesa e uma das mais valiosas fontes para se conhecer a sociedade brasileira já no seu primeiro século de existência*.

Os Tratados fornecem um verdadeiro inventário do que comiam os portugueses, índios e negros, no Brasil dos anos 1580-1600. Serve como um marco referencial importante, a partir do qual se pode seguir a evolução da dieta dos brasileiros. Na edição aqui utilizada, o livro está organizado em duas partes, sendo a primeira “Do clima e terra do Brasil e de algumas cousas notáveis que se acham na terra como no mar” e a segunda “Do princípio e origem dos índios do Brasil e de seus costumes, adoração e cerimônias”.

Na relação dos animais comestíveis selvagens conhecidos no Brasil do século XVI, Cardim destaca:

O porco montês (“é o ordinário mantimento dos índios desta terra” pág. 83); a paca (“a carne é gostosa, mas carregada”, pág. 84); o tatu (“a carne parece de galinha, ou leitão, muito gostosa”, pág. 86); os papagaios (“nesta terra são infinitos; comem-se e é boa carne”, pág. 99); a tucana (“são bons para comer e a pena se estima muito por ser fina”, pág. 104).

“Porco montês”, esclarece Ana Maria de Azevedo nas notas de rodapé ao livro, é o mesmo que porco-do-mato, Das árvores de fruto, encontram-se relacionadas:

O acaju (“são bons para a calma, refrescam muito. A castanha é tão boa e melhor que as de Portugal; comem-se assadas e cruas deitadas em água como amêndoas piladas, e delas fazem maçapães, e bocados doces como amêndoas”, pág. 107); a mangaba (“são de muito bom gosto, sadias, e tão leves que por mais que comam, parece quem que não comem fruta”, pág. 108); o macuoé. (“parece-se com peras-de-mato de Portugal, o pé tem muito comprido, colhem-se verdes, e põem-se a madurar, e maduros são muito gostosos, e de fácil digestão”, pág. 108); o araçá (“o fruto são uns perinhos, amarelos, vermelhos, outros verdes: são gostosos, desenfastiados, apetitosos, por terem alguma ponta de agro”, pág. 109); o ombu (“faz perder os dentes e os índios que as comem os perdem facilmente; as raízes desta árvore se comem”, pág. 109); a jiçapucaya (“se comem muito dela verde, pela uma pessoa quantos cabelos tem em seu corpo; assadas é boa fruta”, págs. 108/9); o araticu (“dá uma fruta de feição e tamanho das pinhas, e cheira bem, tem arrazoado, é fruta desenfastiada” págs. 109/10); o pequeá (“dá uma fruta do tamanho de uma boa laranja” pág. 111); a jaboticaba (“desta fruta fazem os índios vinho e o cozem como vinho de uva”, pág. 111).

Prossegue Cardim:

Cocos. Neste Brasil há muitos coqueiros que dão cocos excelentes como os da Índia; estes de ordinário se plantam, e não se dão pelos matos, senão nas hortas, e quintais; e há mais de vinte espécies de palmeira e quase todas dão fruto, mas não tão bom como os cocos; com algumas destas palmeiras cobrem as casas (págs. 111/2).

O coqueiro (Cocus nucífera, L.) não é espontâneo desta terra; foi levado pelos portugueses da Índia para a África e dali trazido para o Brasil, “onde se deu muito bem”. (Ana Maria de Azevedo, nota de rodapé 89, pág. 111). E mais:

Pinheiro. No sertão da Capitania de São Vicente até ao Paraguai há muitos e grandes pinhais propriamente como os de Portugal, e dão pinhas como pinhões; as pinhas não são tão compridas, mas mais redondas, e maiores; os pinhões são maiores, e não são tão quentes, mas de bom temperamento e sadios (pág. 112)

O livro do jesuíta continua por muitas páginas mais, onde ele descreve “as ervas que são fruto e que se comem”, “os peixes que há na água salgada”, “os mariscos”, “os caranguejos”, “os búzios e as conchas”, “os lagartos de água”, “os animais, árvores, ervas que vieram de Portugal e se dão no Brasil”, tópicos que podem vir a ser apresentados em futuros artigos.

Uma nota final: na segunda parte dos Tratados, Fernão Cardim toca num ponto sensível, mas não menos “gastronômico”: “Do modo que este gentio tem acerca de matar e comer carne humana”. Ele relata:

De todas as honras e gostos da vida, nenhum é tamanho para este gentio como matar e tomar nome nas cabeças de seus contrários, nem entre eles há festas que cheguem às que fazem na morte dos que matam com grandes cerimônias (pág. 190).

Há, como se sabe, uma discussão séria sobre o significado da antropofagia nas sociedades ameríndias. Para alguns, por exemplo, Ana Maria de Azevedo, as práticas antropofágicas, “que eram centrais na cultura tupi, (…) revestia(m)-se de caráter exclusivamente ritual” (pág. 190, nota n. 32). Para outros, o problema, na raiz, era mesmo de escassez de proteína animal na dieta regular dos índios.

* As citações neste texto foram tiradas da excelente edição de Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil. Transcrição, introdução e notas de Ana Maria de Azevedo, São Paulo, Hedra, 2009.

 

Lourdes Barbosa

07. agosto 2011 by admin
Categories: Projeto Sapoti | 2 comments

Comments (2)

  1. Muito bom!!! Esse, como todos os outros textos, leituras indispensáveis para os amantes da gastronomia brasuka! E pra quem está longe da terra maravilhosa (meu caso)…eita saudade boa!!!

  2. Texto muito interessante. Parabens. Abraços, Silvia Cruz

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